segunda-feira, fevereiro 09, 2004
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Lisboa, Fevereiro de 1914.
Neste brevíssimo poema, musicado por Adriana Calcanhotto, o poeta conseguiu condensar sua angústia: "de ser nem um nem outro, mas algo que fica entre os dois", por isso meu favoritismo.
Composto por uma única quadra caracterizada por irregularidade métrica, este quarteto representa um reflexo do estado psíquico do autor. Quando de sua insatisfação ("pilar da ponte de tédio") por não conseguir estabelecer seu eu real ("sou qualquer coisa de intermédio ") encontramos um eu lírico exprimindo um conflito com a realidade que ele pretende ultrapassar.
Segundo Cleonice Berardinelli, em Mário de Sá-Carneiro, "as marcas impressas são do Outro, daquele que ele devia ter sido e em cuja busca perdeu-se sem, contudo, atingi-lo. Ficou a meio caminho entre o que era e o que aspirava a ser: a ponte já seria qualquer coisa de intermédio, mas chegaria ao Outro; o poeta, não: é o pilar, o quase, como ele mesmo disse, ou o entre, como diria Álvaro de Campos. Nem deu pela sua vida real, nem conseguiu dar realidade à vida ideal que sonhou".
J u s s a r a E l i z a b e t h
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