quarta-feira, abril 28, 2004

Escavação

Numa ânsia de ter alguma coisa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar;
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de togo...
- Onde existo que não existo em mim?

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Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim....


Paris, 3-5-1913

Sá-Carneiro

sexta-feira, abril 16, 2004

Aqui o vento não chega, meus olhos já não fecham mais... sem forças minhas mãos... deixo o livro de lado, caminho... tem tantas formas de morrer... vem a noite... penso: "Como será a minha?"...
Nisso, me encolho enperando por outro dia...

segunda-feira, abril 05, 2004

Eu morro como se morre todos os dias
O último esforço, a última esperança
Tudo se vai, inacreditavel aos olhos
Sem força, sem recordações,
O futuro, o que é o futuro para o prostado?
Esperança... como o peito já encheu de esperança!
Mas, agora, que paz encontrar a cada suspiro a menos?
Já não me olham como antes,
Como se no íntimo concordassem comigo:
“Não tem mais jeito, não tem mais reza”

Assim procuro nos meus livros... páginas em branco...
Qual agonia para confortar-me nesses dias
Escrito estava, em giz colorido
Tento descrever, mas como lembrança tenuê
De uma felicidade efêmera, apenas fragmentos
Fagulhas de dias de felicidade, que logo se apagam
Guardei-me para o que não aconteceu
Esperei para o que não veio
Agora longe de mim
O que faço com o que restou?